Empresas nacionais atraem executivos brasileiros de múltis
Por Andrea Giardino (14/06/2006).

A ida de Antonio Maciel Neto, um dos mais importantes executivos do país, para a Companhia Suzano Papel e Celulose em abril passado, acena para um movimento que vem se intensificando nos últimos anos. Cada vez mais profissionais trocam seus estáveis empregos nas multinacionais por uma oportunidade em empresas brasileiras. Entre os diversos fatores que contribuem para esse fenômeno destacam-se: mais autonomia na condução dos negócios, visibilidade perante o alto escalão da companhia, percepção do trabalho desenvolvido pelos sócios, maiores chances de ascensão na carreira e poder de decisão, e , principalmente, salários atraentes.

Uma pesquisa realizada com exclusividade para o Valor, pela Grace & Co, consultoria especializada na contratação de executivos, e que ouviu 107 profissionais revela que 76,63% trocariam o emprego em uma múlti por outra em uma companhia nacional se pudessem. E o principal aspecto que vem influenciando essa escolha é a liberdade na tomada de decisões (32,71% ), seguido da facilidade de acesso à alta cúpula, (23,36%), e chances de conseguir um melhor desenvolvimento profissional (21,49%). Curiosamente, 60,75% afirmaram não cogitar a possibilidade de sair de uma empresa nacional para uma multinacional. O caminho inverso não parece tão interessante.

"Os dados são surpreendentes, porque mostram o grau de insatisfação dos executivos nas multinacionais", analisa Grace Pedreira de Cerqueira, diretora geral da consultoria. As empresas brasileiras, na sua opinião, se tornaram objeto do desejo de muitos profissionais que buscam liberdade para agir e traçar estratégias. "Ele quer ter poder e influenciar nas decisões. E não ser apenas um brinquedo dentro da organização, onde a matriz é quem dita as regras", explica. A própria abertura de capital das empresas brasileiras na bolsa de valores, nos últimos cinco anos, acabou por ajudar a incrementar as políticas de remuneração dos altos executivos.

 

Vislumbrando a chance de ajudar a começar um negócio do zero, Fernando Fischer aceitou o convite para ingressar na Gradiente há pouco mais de quatro anos. O executivo deixou uma carreira na Cigna, multinacional da área de seguro de saúde, onde trabalhou por quase dois anos nos Estados Unidos e mais um ano e meio no Brasil, com o desafio de comandar a unidade de celulares da companhia, que acabava de ser criada. Seu desempenho na divisão de telecom chamou a atenção da alta cúpula que em outubro de 2005 o levou para dirigir a Philco – adquirida pela Gradiente por R$60 milhões.

"Se estivesse em uma multinacional, os resultados do meu trabalho não seriam acompanhados tão de perto para me permitir crescer tão rápido como aconteceu aqui", diz Fischer. Além dessa valorização do profissional, ele pondera como diferencial de uma empresa nacional a possibilidade de assumir riscos e resolver as questões de forma mais ágil. "Em uma multinacional, você fica amarrado às definições da matriz e os processos decisórios são muito lentos”. Não raro, Fischer perdia tempo recebendo gente de fora em reuniões.

Com um salário maior do que o da Cigna, o número um da Philco é retrato de outro fenômeno que contribui para a migração de executivos de múltis para empresas brasileiras.


Nos últimos 10 anos, as políticas de remuneração das companhias brasileiras vêm se aproximado cada vez mais das multinacionais. E até podem ultrapassá-las nos valores ligados aos incentivos, como bônus, por exemplo.

Atrás de resultados ousados, as brasileiras atrelam o desempenho do profissional nessa corrida em busca do cumprimento de metas de curto prazo a políticas agressivas de remuneração. "Em uma multinacional, as bonificações ou ganhos com a compra de ações da companhia demoram até oito anos para você receber. Valores que você pode chegar em três anos em uma empresa nacional", revela Fischer. Gunter Keseberg, presidente da Keseberg & Partners, vai mais além. "Em muitas empresas nacionais, os salários são bem maiores. A Gerdau paga a seus executivos salários que dificilmente eles encontrariam em algumas múltis instaladas no Brasil”, dispara.

Dados de um estudo feito pela Deloitte mostram que um diretor comercial de uma empresa brasileira ganha por mês, em média, R$ 35.470, referente ao pacote total de remuneração (salário e incentivos). Enquanto em uma multinacional, esse valor é de R$ 30.313. "Esses salários acabam se tornando mais altos porque estão alinhados àquelas características que atraíram os executivos a irem para empresas nacionais, como autonomia e poder de gerar resultados diretos", diz Fábio Mandarino, consultor da Deloitte. Em média, ele afirma que uma múlti paga 10% a mais para seus executivos, inclusive presidente, entre salário fixo e variável. "Diferenças que já foram bem maiores no passado”.

Para Guilherme Velloso, da PMC Amrop Hever, esse cenário de transformações é reflexo das mudanças que os grandes grupos brasileiros vêm enfrentando. "Muito mais profissionalizadas , essas empresas evoluíram em seu modelo de gestão e hoje competem de igual para igual no mercado internacional", afirma. Posição que as coloca na lista das mais desejadas pelos executivos. "Imagina se o profissional de uma subsidiária brasileira que representa 1,5% do faturamento da companhia é percebido?", questiona o consultor. Na sua opinião, poucos conseguem o feito de Maciel, que acabou virando estrela por reverter uma posição de quase falência da operação brasileira da Ford.

Daniel Gonzaga, diretor de pesquisa e desenvolvimento da Natura, fala de carteirinha sobre o assunto. Ele iniciou sua carreira da Unilever há 15 anos. Lá ele mal via seu chefe e sempre cumpria ordens da matriz. Na Natura, o executivo define as estratégias junto com a alta cúpula, influencia direto no resultado da empresa, o que o faz se sentir parte das decisões traçadas pela companhia para o futuro. "Aqui tenho linha direta com o comitê executivo. Lá eu era mais um nas reuniões que contavam com 70 profissionais”.

Em um ano e meio de casa, Gonzaga já consegue ver na prática, inclusive, o trabalho que vem desenvolvendo. Esse estreito relacionamento com a linha de frente da companhia aconteceu desde quando foi procurado por um headhunter para a vaga na Natura. "Nas entrevistas, conheci o presidente da empresa", lembra Gonzaga, que recebeu uma proposta financeira atraente, envolvendo um pacote de remuneração variável agressivo. "Nas multinacionais, que têm operações consolidadas, você não consegue ter ganhos muito maiores com as stock options”, diz.

De acordo com a Deloitte, as empresas brasileiras se destacam pela política mais forte de incentivos de curto prazo - recompensas oferecidas ao executivo para resultados alcançados em até um ano. A Natura, por exemplo, inclui em seu plano de recompensa por desempenho bônus coletivos e individuais de até 12 salários, além da opção de ações da empresa. Se as metas definidas no início do ano são cumpridas 100%, os executivos do alto escalão chegam a ganhar 24 salários por ano. "Empresas como a Natura, Votorantim e Gerdau se transformaram em verdadeiros gigantes globais e nessa briga acabam sendo até mais competitivas do que as multinacionais em termos de remuneração. Muitas pagam salários entre 20% e 30% acima das múltis", revela Keseberg.

Há dois meses, Sandra Maia decidiu deixar o grupo francês Accor em busca de novos desafios. Tornou-se executiva de marketing corporativo de um dos maiores grupos nacionais do setor hoteleiro, o Blue Tree. Depois de fazer carreira em multinacionais - em seu currículo há experiências em gigantes como Philips e Nestlé -, ela não teve dúvidas quando foi convidada para fazer parte dos quadros de uma companhia brasileira. "A grande diferença é que as coisas acontecem mais rápido e você tem nas suas mãos o poder da tomada da decisão”.

Apesar de ainda ter pouco tempo na empresa, Sandra, assim como Daniel Gonzaga da Natura, enxerga de perto as diferenças. No novo trabalho participa de maneira efetiva de mudanças. "O Blue Tree passa por um processo de reestruturação em busca da excelência e quem está aqui dentro tem um papel fundamental", observa. Com planos de expansão para novos mercados nos próximos anos, a empresa, segundo ela, abre inúmeras oportunidades para quem deseja fazer carreira internacional. "O grupo deve abrir um novo hotel no Peru até 2008 e temos uma proposta quase fechada na Costa Rica. São portas que se abrem para os profissionais e que certamente nas multinacionais o acesso seria mais restrito".

 
 
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